Um Novo Capítulo

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Em resposta ao modelo burocrático, hierárquico e fechado do ChapCom

Inspiração

A forma como a WMF criou os capítulos, concedendo monopólios regionais a corporações sem fins lucrativos, foi equivocada.

Isso que a Béria repete, e que substanciou com a palavra de seus membros, é o conto da sacralidade do modelo que o chapcom vende por aí. Descartando-nos com refutações descontextualizadas de alvos fáceis, mas secundários, enquanto esquivam-se das questões principais, como discutir as críticas feitas e permitir a participação de alternativas nos processos - com qualquer nome que seja.

Mas essa sacralidade nem a WMF compra, visto o apoio que temos recebido para desenvolver modelos alternativos de ação.

De fato, a WMF encarregara ao Chapcom que nos ajudasse a desenvolver nossa ideia e negociasse como incorporar-nos ao sistema atual. Eles, da forma mais rude possível, recusaram essa tarefa, retornando à WMF a responsabilidade. Foi essa, inclusive, uma das razões que levou a fundação a contratar a Carol, para introduzir oficialmente a discussão.

Por que o chapcom fez isso? Por que eles rejeitam tão violentamente qualquer relação conosco, com base num boicote legalista? Bem, vale aqui conhecer um pouco a realidade, que pude testemunhar em dois chapters' meetings e duas Wikimanias, interagindo com mais de uma dúzia de representantes de capítulos e conversando pessoalmente com membros da mesa diretora e funcionários da WMF, tendo inclusive estado em São Francisco visitando a sede.

E essa realidade é que o chapters' meeting é uma coisa embaraçosa, para não dizer uma vergonha. A maioria dos chapters são coordenados por gente sem nenhuma experiência em mobilização popular ou institucional, de pouca visão empresarial, e competência estritamente burocrática - quase sempre adquirida de última hora para formatar um estatuto. Não vou entrar no mérito do que eles realizam, mas não há dúvida que todas as vezes que nos apresentamos lá estávamos bem acima da média e da mediana.

Até aí, também há capítulos bacanas e bem geridos, ainda que deixem a desejar em alguns aspectos; poderia-se dizer exemplos a serem seguidos. Poderia-se criticar apenas a sede de multiplicar as estruturas sem garantir sua qualidade. Mas essa não é toda a realidade.

E tomo então os olhos do Rodrigo, que falou uma coisa acertada: siga o dinheiro.

Quase a metade do tempo dos chapters' meetings são gastos discutindo como abocanhar para os capítulos mais direito sobre a marca e mais proeminência na campanha de angariação de fundos.

A metade maior do tempo se divide entre questões burocráticas, financeiras, criação de mais capítulos e no que sobrar relatam-se algumas experiências de outreach e parcerias institucionais que seriam muito melhor aproveitadas se melhor documentadas e divulgadas nas wikis ao invés de apresentadas en-petit-comité.

A falta de um padrão de transparência, lembrada pelo Tom, é tamanha que eles nem se põe a questão.

Por isso eu acho pouco relevante nesse momento que não estejamos ali, ao mesmo tempo em que não sermos bem-vindos é um sinal importante para a WMF.

Porque nossa ideia é que podemos mobilizar mais gente e fazer coisas mais sustentáveis sem precisar transferir a gestão de marcas e recursos - isto é, poder sobre a parcela excluível do valor do trabalho de toda a comunidade - a priori e para pequenos grupos autárquicos. E porque não nos dobramos na questão da transparência.

Por isso o chapcom é tão avesso ao modelo transparente, participativo e distribuído proposto pela WMBR, pois temem que nos tornemos um vírus que possa contestar a situação do lado de lá. Para completar, alguns de seus membros tem dentro daquele modelo um projeto de poder individual já público de tão escancarado.

Bem, agora que já devo ter deixado a MônicaBéria espumando (de blincadeila!), permitam-me relembrar a importância de um termo na primeira frase deste e-mail: desenho institucional.

Problemas de desenho institucional são, como a atual crise econômica internacional, situações onde internamente não há culpados morais, nem ninguém pode ter seu caráter julgado, pois os incentivos foram postos ali para as pessoas agirem daquela forma. Também são problemas difíceis, onde só pessoas em posições privilegiadas e com capacitações específicas enxergam que há um problema. Isso não quer dizer, contudo, que não existam responsabilidades.

A WMBR entrou em sua posição privilegiada quando surgiram divergências, já mencionadas pelos Rodrigos, ligadas ao nosso contexto geo-político-econômico-cultural, e enxergamos uma saída do modelo pois tínhamos em nosso meio várias pessoas com conhecimento e experiência em corporações com e sem fins lucrativos, movimentos sociais, políticos, leis e economia, capazes de analisar a situação de maneira a fazer valer um lema das wikis: seja audaz.

Assim que, esse escape, como tal, não foi totalmente consciente ou proposital, mas também fruto de acidentes programados. Apenas hoje podemos olhar para trás e entender os acontecimentos nesse contexto mais amplo.

Enfim, na minha tentativamente humilde opinião, é esta a situação em que nos encontramos, ou ao menos a que consigo comunicar.

Tenho enorme admiração e respeito por muitos membros de capítulos, do chapcom e até por algumas das instituições, mas isso não significa que eles estejam num bom caminho. Soldados honestos e nobres patriotas lutaram também em guerras opressivas.

Gerenciar o valor excluível de um projeto comunitário de forma justa é algo terrivelmente complexo e requer avanços e retrocessos. A WMF tem uma estrutura participativa, transparente e minimalista para lidar com isso, e ainda está longe da perfeição. A preocupação do Lugusto e da Béria com a participação de não-wikimedistas nos princípios da WMBR refletia isso.

A realidade que testemunhei, com minhas limitações e imperfeições, adicionalmente sugere que a participação de wikimedistas por si não garante o que se desejava no médio prazo: preservar os valores das wikis. Eles encontram-se institucionalmente corrompidos pelo modelo.

Como a influência não é explícita, mas sistêmica, os incentivos se alinham a formar uma bolha de capítulos. Vários monopólios regionais sem nenhum padrão de comparabilidade, transparência, participação e, em países continentais ou desiguais, sem garantias de distribuição.

Seus efeitos são mais contundentes em regiões sensíveis a essas questões, daí que os estadunidenses notaram primeiro a necessidade de organizarem-se regionalmente e daí que a bolha estourou primeiro aqui, num país continental e imensamente desigual, com um grave déficit de participação e transparência por ter emergido de duas ditaduras no primeiro século de sua república.

Para encerrar, sobre nossa responsabilidade nessa situação, de nós ela apenas requer que sigamos dando um bom exemplo, buscando soluções criativas - como foi a própria wikipédia - e não nos percamos os valores que nos definem.

Um abraço,

A Carta

Como há piadas internas e referências passadas no email para montarmos algo "sério", temos que reescreve-la